Domingo, 3 de Maio de 2009
Aos 5
Segunda-feira, 20 de Abril de 2009
Ânsia
Terça-feira, 7 de Abril de 2009
Cotidiano
Ontem foi a sua vez de fazer o almoço. Somente o meu copo de suco estava gelado, havia espaço somente para um copo no congelador e somente você poderia ter lembrado de usar esse espaço. Por essas atitudes, que agora você ocupa um lugar onde já não há espaço pra mais ninguém.
Ontem foi a sua vez de decidir qual canal assistir. Dentre tantas opções que te interessavam, ao perceber que eu tinha algumas coisas pra falar, você escolheu tirar o som pra gente conversar. Minha única e desconcertada opção foi encurtar e minimizar a conversa.
Ontem foi a sua vez de escolher qual música ouviríamos. Foi único o momento em que você me entregou aquele cd dizendo que o gravou pra mim, que as duas últimas músicas eram instrumentais e que com alguma sorte a esta altura eu já estaria dormindo.
Além de preparar o café, o almoço, decidir qual canal assistir e qual música ouvir, hoje será a minha vez de usar tudo isso como pretexto para deixar os meus gestos, os meus pequenos gestos te dizerem que também te amo.
Domingo, 8 de Março de 2009
Perto demais
Antes de bater a porta e me chamar de filho da puta, você disse que eu parecia ter o dom de enganar a todo mundo. Fiquei surpreso, pois quando falei que não ia mais cozinhar pra você, é porque já tinha decidido rasgar o seu livro de receitas. Quando te disse que você me sufocava e que eu precisava de mais espaço, eu já tinha mesmo decidido me desfazer da nossa cama de casal. Andava pelo apartamento tentando descobrir o que significava ter o dom de enganar a todo mundo.
Um mês se passou e agora enquanto colo os últimos pedaços do seu livro de receitas, fico te olhando dormir e tentando me convencer que essa cama de solteiro tem espaço suficiente pra nós dois. Definitivamente eu não esperava que aquele “todo mundo”, do dom de enganar a todo mundo, também incluísse a mim mesmo.
Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009
Antes de partir
-- Agora para e pensa.
-- Sim.
-- Só eu sei calcular exatamente a hora que você vai começar a ter sono.
-- Sim.
-- Só eu sempre vou me dispor a levantar e encontrar um cardápio pra depois passar 5 minutos te olhando e fingindo que seu suco não vai ser de morango.
-- Sim.
-- Só eu poderia passar horas aqui citando mil coisas românticas e me contentando apenas com um “Sim” como resposta.
-- Sim.
-- Só eu aceito viver essas nossas histórias de amor, sem amor.
-- Sim.
-- E continuo não dando a mínima pro fato da gente não ser apaixonado um pelo outro.
-- Sim.
-- Enfim, só eu posso ser o homem da sua vida.
-- Não sei.
-- Tá, eu admito, só eu posso ser o homem e a mulher da sua vida ao mesmo tempo.
-- Hmmm, interessante.
-- Promíscua.
Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009
Romantismo pós-moderno
Sexo tem que ser com amor, pois depois que o sexo acaba, o que sobra é o amor. E se não existe amor, aquilo tudo se torna um vazio muito grande. Duas pessoas deitadas lado a lado sem nada em comum entre elas. Sem nada que as conecte. Agora, se mesmo assim você ainda quiser transar comigo, tudo bem, vamos em frente. Só não vai ficar esperando que eu te ligue no dia seguinte.
Capítulo V
A gente acabou subindo pro terraço do prédio, ela ainda um pouco bêbada e eu sob o efeito de tudo que tinha passado. Sentamos no parapeito e passamos uns 10 minutos sem dizer nada. Aquele vento nos impedia de abrir bem os olhos e eles acabavam sempre voltando-se para baixo, onde os carros se enfileiravam.
-- Você quer realmente tentar descobrir o que aconteceu semana passada? – ela disse
-- Na verdade não. Só quero tentar descobrir como você pôde me trair?
-- Não tenho mais tanta certeza sobre a gente. Não sei se é isso que eu realmente quero pra mim.
- Percebi isso há um tempo. As vezes tinha a impressão que você só me beijava da boca pra fora. Você sempre foi assim, nunca se dedicou completamente, nunca esteve disposta a viver isso incondicionalmente. Porque você não pula?
-- Eu já pulei. O problema é que as vezes não consigo distinguir se eu to voando ou se eu to caindo.
-- Tá. Então continuamos ou paramos por aqui?
-- Paramos. E continuamos por aqui.
FIM
Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Capítulo IV
Uma semana se passou e eu comecei a receber alguns telefonemas de amigos da faculdade querendo saber se havia acontecido alguma coisa. Claro que as respostas eram sempre as mesmas e já estavam ensaiadas há algum tempo. Cada vez que ouvia o telefone tocar imaginava que poderia ser a Flá pra me dizer algo que mudasse completamente nossa situação. Sempre quis ter a iniciativa de ligar pra ela mas não me sentia preparado psicologicamente e ainda tinha um pouco de medo. Em contrapartida, aquela semana longe de tudo acabou me revigorando e eu percebi que não precisaria de muito mais tempo isolado do mundo pra conseguir voltar a ter uma vida normal. O prazer de viver coisas simples parecia ter retornado e isso me motivava a seguir, sempre em frente. Estava saindo pra comprar uma bebida quando ironicamente me vi frente a frente com a única pessoa que poderia mudar meus planos de não olhar pra trás. A Flá parecia muito deprimida e tava com uma cara de quem tomou um porre por tristeza e não por alegria. Os vícios costumam agir dessa forma. Se você sempre recorre a uma mesma coisa em momentos completamente diferentes pode ter certeza de que está viciado. Ela sempre me dizia isso. Desta vez estava na cara que a bebida estava ligada a tristeza e eu precisava ouvi-la.
-- Estou muito preocupada com você. Da última vez que a gente se viu você parecia transtornado e começou a dizer algumas coisas sem sentido.
-- Como coisas sem sentido Flá?
-- Não sei. Logo que eu entrei no apartamento você repetiu umas três vezes: “Talvez você tenha razão. Mal intencionado sou eu por querer manter uma relação com você.”. Eu entendo que me ver com outra pessoa não deve ter sido fácil, mas você parecia fora de si. Tive muito medo e acabei indo embora sem dizer nada.
-- Não, não faz sentido! Isso não aconteceu. Essa frase só saiu da minha cabeça e foi pro papel. Eu não te disse tudo isso.
Quais eram as respostas? As únicas coisas reais na situação pareciam apenas ter sido a traição e os diálogos. Quanto a traição me parecia evidente que tinha servido como gatilho para disparar todos os transtornos que eu passei, mas e os diálogos? Eu precisava saber o que era verdade, o que eu imaginei e o que eu ainda imaginava ser verdade. E nisso a Flá podia me ajudar.
-- E a ligação que eu te fiz? Você terminou tudo comigo por telefone Flá!
-- Ligação? Depois daquele dia a gente não se falou mais. Achei que você precisava de um tempo sozinho pra lidar com a situação.
Não! Aquilo tudo não podia estar acontecendo! Ou melhor, algumas coisas deviam ter acontencido e agora ela estava negando tudo. Eu precisava encontrar algo que me fizesse acreditar que nem tudo estava perdido. Que me desse novamente esperanças de que eu não estava completamente paranóico. Comecei a abrir todas as gavetas e procurar por todos os papéis espalhados pela casa. A cada folha encontrada passava dois segundos lendo seu conteúdo e depois disso a jogava no chão. Isso tudo durou uns 10 minutos até que dentro de um caderno antigo eu encontrei as folhas com o início da estória. Os diálogos estavam lá! A Flá os pegou rapidamente da minha mão.
-- Olha aqui! “Talvez você tenha razão. Mal intencionado sou eu por querer manter uma relação com você”. Você terminou o diálogo assim! Isso parece ser uma espécie de roteiro de como você imaginava que seria nossa conversa. Meu Deus!
-- E o segundo diálogo? – perguntei assustado
-- Ele não existiu! Tanto como Cá quanto como Flá essa conversa nunca aconteceu. Eu não te disse nem que terminaria nem que continuaria com você. Depois que eu sai do ap naquele dia a gente não se falou mais... Rafa.
-- Oi.
-- Você precisa de ajuda.
Não sabia mais o que pensar daquilo tudo. Todas as vagas lembranças que eu tinha não aconteceram ou só aconteceram na minha cabeça. A única certeza que eu tinha era de que houve a traição e que depois disso tudo ficou muito mais estranho do que eu imaginava. Já tinha ouvido falar em stress pós traumático mas não imaginava que poderia viver alguma coisa do tipo. Segurei muito forte a mão da Flá e em seguida a gente se abraçou longamente. Tive a sensação de que ela estaria do meu lado e me apoiaria na tentativa de descobrir exatamente tudo o que tinha acontecido naquela semana.
Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009
Capítulo III
Meu mundo agora se dividia em duas vertentes: dentro de casa, triste e depressivo, fora dela, em pânico e com medo. Eu sabia que precisava de ajuda mas depois de tudo o que aconteceu com a Flá estava totalmente descrente que alguém pudesse me fazer enxergar alguma saída para aquilo tudo. Era manhã de terça feira e infelizmente os últimos comprimidos que eu tomava pra dormir tinham acabado e agora não tinha mais jeito, eu ia ter que fazer o que mais odiava nos últimos dias: sair de casa. Desci pela escada pra não correr nenhum risco de encontrar algum “quase estranho” no elevador (já que todos que moram no mesmo prédio nunca são estranhos por completo, ou fingem não ser). Fazia muito sol e a rua estava bastante movimentada. Ter que redobrar minha atenção pra atravessar a avenida não foi difícil já que me preocupar com tudo ao meu redor era o que eu mais tinha feito naqueles últimos dias. Poucos metros antes de chegar a farmácia fui surpreendido por uma mulher que aparentava ter uns 30 anos, cabelo bem preto, um envelope na mão e um vestido verde que me chamou bastante atenção.
-- Oi. Você pode me dar uma informação?
Ela ignorou a minha cara de assustado, provavelmente por julgar isso natural naquela situação, e continuou.
-- Estou procurando o tribunal de justiça. Acabei de descer do ônibus e sei que deve ficar aqui perto.
Por sorte ficava bem ao lado do meu prédio e eu até sabia o número.
-- Fica descendo aquela rua. É número 1937.
-- Ahh. Isso mesmo que eu tenho anotado aqui. Dezenove, três sete. Muito obrigado, prazer Júlia!
Fiz um sinal de positivo com a cabeça e segui em frente. Fiquei imaginando o que tinha dentro daquele envelope. Só esperava que não fosse nada escrito a próprio punho pois depois dela se despedir com um “obrigado” e não “obrigada” fiquei com medo de que ela tivesse de refazer o documento por causa de algum erro gramatical. O mau humor já estava me dominando e só não foi maior pelo fato do farmacêutico não pedir uma receita pra me vender o remédio (nem me lembrava onde estava a última). Na hora de pagar, enquanto o atendente contava o dinheiro, fiquei tentando decifrar o seu olhar de estranheza pra mim. Concluí que devia ter sido por causa do número de moedas (na verdade o olhar poderia nem ter existido e se existiu não foi por esse motivo). Voltei pro apartamento e minha cabeça parecia pesar o dobro do meu corpo. Só me lembro de ter deitado na cama, ouvido um zunido muito forte e ter a sensação de que morreria por causa de um aneurisma ou algo do tipo. Três horas depois, acordei e já não lembrava muito bem do que tinha acontecido pouco tempo antes quando eu tinha saído pra ir a farmácia. Vivia em um mundo paralelo onde o tempo não regia o meu dia. Podia dormir a hora que quisesse, comer a hora que quisesse ou assistir tv a hora que quisesse, porém não tinha vontade de fazer qualquer uma dessas coisas. No meu ap não batia muito sol e normalmente eu tinha que sempre acender as luzes, mesmo de dia. Mas naquele dia isso contava a favor e quanto mais escuro melhor eu me sentia. Não fazia idéia das horas. Enquanto meu olhar vagava pelo quarto enxerguei metade de uma folha de caderno que tinha usado pra escrever o último diálogo da estória. Reagi da mesma forma que reagia a qualquer outra coisa: com indiferença. Não queria mais escrever livro algum, não tinha motivo e muito menos motivação pra continuar com aquilo. Meus olhos se encheram de lágrimas quando percebi que não tinha mais perspectiva de nada. Foi nesse instante que o telefone tocou.
-- Boa tarde, aqui quem fala é Júlia da central de departamento de marketing..
Antes que ela terminasse me lembrei vagamente de ter conversado com alguma Júlia umas horas atrás
-- Júlia! A gente se conheceu há pouco tempo aqui na rua, perto de casa.
-- Olha Senhor, deve estar havendo algum engano.
-- Não precisa me chamar de Senhor horas..
-- O seu telefone é 3232-1937?
Quando ela disse dezenove três sete tudo ficou muito claro pra mim. Era a mulher que eu tinha encontrado na rua mesmo e eu havia dado meu telefone pra ela.
-- Isso mesmo! 1937.. O número que eu te dei quando a gente se encontrou na rua.
Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008
Capítulo II
Por mais que eu tentasse resistir, não tinha jeito, a semana tava começando e eu precisava ir pra faculdade. Essa era a minha única obrigação (mesmo eu não sendo obrigado a cumprir). Troquei de roupa e quando já tava quase saindo olhei pra aquela camiseta branca e pensei: não, melhor trocar, vestido de branco assim os outros vão pensar que eu sou louco. Voltei, coloquei uma camiseta preta e fui em direção ao ponto de ônibus. Eles apontavam no fim da rua enquanto eu tentava ver ansiosamente se era o que eu pegava e depois que eles chegavam me sentia impaciente e frustrado por não ser o meu. Isso se repetiu umas 50 vezes até que finalmente ele apareceu. Minha cabeça doía e meus olhos começavam a pesar um pouco. Sentei na janela, no segundo banco da direita. Olhava as pessoas que entravam no ônibus passarem e quando alguma delas olhava para o banco vazio ao meu lado eu pensava: não, não, é proibido sentar aqui, proibido, proibido. Algum tempo se passou e o inevitável estava pra acontecer. Alguém ia ocupar aquele lugar, era uma menina, aparentava ter uns 22 anos, loira, muito bonita e talvez por muitas pessoas dizerem isso pra ela, tinha uma cara de cú impressionante. Parecia se sentir a rainha do ônibus. Enfim, a miss da linha se sentou ao meu lado e a viagem seguiu. Quando faltava uns 10 minutos pra eu descer tudo estava parado; alguns funcionários de alguma construtora reivindicavam alguma coisa. Sinceramente eu não tava nem aí pra aquilo, mas como de costume aquilo me atingia diretamente. Enquanto o marasmo se seguia pensei em puxar um papo com a miss da linha. Primeiro imaginei como seria a conversa pra ter certeza se valeria a pena.
-- Olá. Tudo bem?
(cara de cú, seguida de um meio tudo)
-- Tá afim de conversar ou tá sem saco?
-- Ahh, to com sono.
-- Então tá, foi um prazer não te conhecer!
Comecei a rir incontrolavelmente e aquilo chamou a atenção de todos (principalmente da miss da linha). Ela me olhou com cara de estranheza e percebendo que havia um banco vazio do outro lado se levantou. Naquele momento eu olhei pra ela e disse bem alto: foi um prazer não te conhecer! Desta vez seu olhar foi de medo e ela desceu no ponto seguinte. Coitada, deve ter tido que andar quase 1 km e nesse trajeto todo deve ter me xingado de todas as formas. Me arrependi um pouco mas pelo menos consegui esquecer daquela dor de cabeça que voltava subitamente. Saltei do ônibus e segui em direção a faculdade. A primeira aula já tinha começado. Entrei e me senti fuzilado com todos me olhando. Depois de cumprimentar alguns amigos percebi que não conseguia me concentrar em nada que o professor dizia. Só conseguia prestar atenção nas pequenas conversas paralelas e tentava decifrar o que falavam para saber se não era nada relacionado a mim. Aquilo foi aumentando e eu não consegui mais me segurar. Juntei as minhas coisas e sai da sala completamente atordoado. Dessa vez dei sorte e meu ônibus foi o primeiro a passar. Enquanto há meia hora atrás dava gargalhadas, agora estava aos prantos me sentindo totalmente dominado por tudo aquilo. Eu não aceitava aquela situação e quanto mais tentava assumir o controle de tudo menos controle tinha sobre o que estava acontencendo. Cheguei no apartamento ainda antes do almoço e resolvi tomar um banho pra tentar relaxar. Me lembro da minha vista escurecer e de não conseguir entender muito bem porque a torneira continuava girando sem parar (na verdade ela tava espanada, mas pra mim aquilo era alguma coisa da minha cabeça). Não sabia mais o que fazer. Morava sozinho e não queria deixar minha mãe preocupada com aquilo, até porque ela levaria mais de 6 horas pra chegar em São Paulo e sinceramente eu não me considerava ter sido um bom filho até aquele momento pra merecer tanta atenção.
Resolvi continuar a estória que começara no dia anterior mas desta vez sob um prisma mais positivo. Tinha que de alguma forma reconciliar os personagens pra que o livro começasse de vez.
-- Alô, Ca? Sou eu.
-- Pode falar..
-- Realmente tudo o que a gente tá passando tem me feito muito mal e eu não posso mais continuar assim. Preciso muito de você nesse momento e você nem imagina o quanto. É uma coisa que vai muito além de gostar ou querer ter pra si.
-- Tá acontecendo alguma coisa? Tô ficando preocupada. Pra mim a gente nunca esteve prestes a terminar, só tava numa fase um pouco mais nebulosa e nada mais.
-- Nossa Ca, você não imagina como é bom ouvir isso. Parece que tirei um caminhão das minhas costas.
-- O senhor exagerado! Amanhã a gente se vê! Beijo!
-- Beijo.
Um pouco simplista demais talvez, mas foi o máximo que consegui produzir. A minha ansiedade pra resolver tudo contribuiu e contagiado pela atmosfera do texto resolvi ligar pra Flá.
-- Alô, Flá? Sou eu .
-- Pode falar..
-- Realmente tudo o que a gente tá passando tem me feito muito mal e eu não posso mais continuar assim. Preciso muito de você nesse momento e você nem imagina o quanto. É uma coisa que vai muito além de gostar ou querer ter pra si.
-- Sinceramente acho que não tem mais clima pra gente ficar junto. Queria ter dito isso a você quando fui aí, mas não consegui. A gente vive momentos muito diferentes e eu acabei conhecendo uma pessoa muito especial. Enfim, não quero falar muito disso pra não te magoar mais.
-- Nossa Flá, você não imagina como é ruim ouvir isso. Parece que o mundo tá caindo nas minhas costas e eu esperava que você me ajudasse a tirar tudo de cima, mas pelo contrário, você acaba de jogar mais coisas em cima de mim..
-- Me desculpa! Por favor!
Desliguei o telefone e tive todas as sensações de perda ao mesmo tempo: dor, inconformismo, raiva, angústia. Tinha feito o máximo pra conseguir manter tudo como estava. Me concentrei e lutei contra meu estado psíquico pra ter aquela conversa mas de nada adiantou. Desconsolado, andando de um lado para o outro conclui que a estória da minha vida não seria escrita só por mim, mas sim, no mínimo a quatro mãos.
Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008
Capítulo I
Sempre achei São Paulo uma cidade muito fria, cinza, um lugar onde as pessoas olham as outras só pra confirmar se estas estão olhando pra elas. Um lugar onde a desconfiança e o medo sufocam qualquer tipo de hospitalidade que alguém possa ter. Voltava da faculdade, onde cursava o terceiro ano de publicidade, na mesma hora de sempre. As pessoas também eram quase sempre as mesmas e algumas vezes eu pensava viver algo parecido com o que acontece no filme “Truman: show da vida”. Devaneios a parte, naquele dia alguma coisa parecia diferente. Aquele primeiro banco do ônibus já não estava tão confortável assim; as conversas das outras pessoas atrás de mim me incomodavam e eu não me sentia avontade com aquilo. Imaginava que todos falavam de mim, de algum detalhe ou alguma coisa em mim que eu não percebia. Aquela sensação de estranhar a si próprio não parecia ser tão estranha. Desci no segundo ponto depois do cemitério (era assim que eu tinha aprendido em que ponto descer e continuava sendo assim que eu fazia há 3 anos). Cheguei no prédio ansioso e um pouco ofegante e me perguntava porque o porteiro não destravava logo o portão. Será que ele tinha alguma coisa contra mim? pensei. Entrei e percebi algo estranho em seu olhar. Logo depois que as portas do elevador se fecharam ouví algumas risadas que confirmaram o que eu pressentia: ele só podia estar rindo de mim. Entrei sem saber se eram todos que estavam diferentes ou eu que não conseguia mais me reconhecer. Aquilo tudo era muito estranho, parecia que o mundo conspirava contra, que tudo girava ao meu redor no sentido contrário. Liguei a tv e subitamente vi o relógio do jogo de futebol voltar 1 segundo e deixar claro meu estado de paranóia. Deitei na cama e comecei a transpirar e sentir uma impotência muito grande diante de tudo que se passava. Estava acontecendo de novo, era síndrome do pânico. Dentre todas as minhas paranóias essa era a única que agia sobre mim sem que eu conseguisse esboçar nenhuma reação. Liguei para a minha analista e ela me indicou o mesmo calmante que eu tomei da última vez que tinha acontecido. Por sorte eu ainda tinha alguns comprimidos em cima da geladeira e não precisei juntar forças e criar coragem pra descer até a farmácia. Aquela tarja preta agiu como uma venda em meus olhos e depois de engolir o comprimido não me lembro de mais nada.
No dia seguinte estava deitado no chão da sala com a tv ligada e uma dor de cabeça incontrolável. Já passava das duas da tarde e eu precisava comer alguma coisa. Poderia ter feito o pedido por telefone, mas meu espírito de superação falou mais alto e eu decidí ir até um fast food próximo pra encarar o problema de frente. Depois de sentar para esperar meu pedido ficar pronto percebi que duas meninas conversavam e me olhavam de vez em quando e eu também as olhava, mas apenas pra saber se elas estavam me olhando. Uma mesa vazia a minha esquerda determinava o espaço que nos separavam que não passava de um metro. A proximidade era muito grande e diretamente proporcional ao pânico que eu comecei a sentir. Tentei disfarçar procurar algo no celular, mas quanto mais eu tentava parecer normal mais estranho eu ficava. Minhas mãos começaram a tremer e as meninas perceberam o que estava acontecendo. Prontamente as duas se levantaram e enquanto a primeira me olhava com cara de assustada, a segunda tentava convence-la de que não havia problema algum e que ela já tinha conhecido pessoas com casos parecidos. Elas foram embora e aquele fato me abalou profundamente. Comecei a chorar e entre uma lágrima e outra peguei o almoço e resolvi comer em casa. Passei pela recepção do prédio olhando para o chão e desta vez não dei nenhuma chance para que o porteiro me atingisse com algum olhar estranho. Depois de comer, liguei novamente pra minha analista e descrevi toda a situação. Ela me explicou que isso acontecia porque havia algum gatilho que disparava a minha sensibilidade elevando-a a níveis extremos e que eu precisava identificar a causa e resolver a situação. Realmente era isso, da primeira vez o fato estava ligado a morte de meu pai e desta ao possível término do meu namoro de quase 3 anos. Era insuportável imaginar que a mulher da minha vida estivesse prestes a deixar a minha vida. Para que isso não acontecesse eu estava disposto a aceitar o fato dela ter ficado com outra pessoa e já atribuía ao que aconteceu a idéia dela ter acabado de entrar na faculdade e estar contagiada por todo o clima de mudança proporcionado por isso. Liguei para a Flá e pedi pra ela passar as 18 no meu ap pra gente conversar.
Definitivamente o tempo não estava a meu favor. Depois de vê-lo voltar no dia anterior o que eu mais queria era que ele passasse o mais rápido possível naquela tarde. Aproveitei pra colocar em prática um desejo antigo: começar a escrever um livro. De acordo com a minha analista aquilo me ajudaria a exteriorizar todos os meus medos e angústias e a medida que eu fosse escrevendo iria me sentir cada vez mais relaxado. Era inegável que a minha situação naquele momento iria influenciar diretamente na estória. Sem nenhuma inspiração, as coisas não caminhavam muito bem e eu tinha produzido muito pouco até que a campainha tocou. Só podia ser a Flá e a tão esperada conversa estava pra começar.
-- Tudo o que aconteceu não foi de propósito, ou pelo menos com o propósito de te magoar.
-- Como?
-- Isso mesmo! Não tive intenção de te machucar.
-- Mas as suas intenções com aquela pessoa me machucaram. Portanto, mesmo indiretamente você teve intenção sim.
-- Você nunca vai entender Gabriel! Você não consegue separar as coisas. Se primeiro tentasse me entender, talvez agora conseguisse perceber que não havia má intenção.
-- Talvez você tenha razão. Mal intencionado sou eu por querer manter uma relação com você.
Pronto, o primeiro diálogo da estória tinha terminado. Ainda refletindo se Gabriel seria um bom nome pro protagonista abrí a porta e a Flá entrou. Depois de um beijo rápido, apenas pra cumprir o protocolo, comecei a conversa enquanto ainda trancava a porta.
-- Flá. A gente tá passando por momentos diferentes, mas eu acho que tudo pode dar certo, a gente pode ficar bem e superar tudo isso.
Diferentemente da estória, comecei logo fazendo o papel que eu esperava que a Flá fizesse. Não queria continuar brigado e nem discutir muito sobre o assunto; precisava resolver aquilo o quanto antes. Porém, parece que o desejo não era recíproco. Um silêncio enorme se seguiu depois de eu ter dito aquilo. Ela estava com uma cara que negava cada palavra e ao mesmo tempo com um olhar de estranheza muito grande, talvez em retribuição aos meus que deixavam visíveis minha situação. Minha cabeça tremeu levemente como uma espécie de tique nervoso e depois de alguns segundos ela resolveu me dizer que ainda estava muito confusa e que não decidiria nada naquela hora. Que merda! Eu poetizei tanto aquele momento, criei um diálogo pra estória tentando prever como seria (tudo bem que no diálogo eu não dava o braço a torcer mas no fundo queria que tudo terminasse bem) e só recebí em troca uma resposta da boca pra fora. Ela pareceu ter passado só pra dar um “oi” e dizer que tudo continuava igual. O vazio que se instaurou entre a gente foi tão grande que pela primeira vez achei que aquela kit net possuia espaço suficiente pra alguém sobreviver. Tinha quase certeza de que ela percebeu que eu não estava mentalmente bem e por isso deu um jeito de ir embora o quanto antes. O impasse estava formado. Eu precisava dela pra superar tudo aquilo e ao mesmo tempo parecia precisar estar bem para continuar com ela.
Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008
Planos
Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008
Paranóia
- Quem é você?
- Leonardo, prazer.
- Eu tenho um plano de fuga. Você consegue levantar só uma sombrancelha?
- Ham?
E o velho prosseguiu.
- Sempre que eu digo que tenho um plano de fuga imagino o outro levantando só uma sombrancelha.
- Eu não consigo, mas tenho vontade.
- Seu desejo é uma ordem majestade!
Percebendo que o velho já tinha se esquecido do plano de fuga resolvi retomar.
- Mas e o plano, como você pretende fugir?
- De barco, depois que as águas invadirem.
Sim, ele me mostrou um barquinho de papel e eu me arrependi de ter retomado a conversa. Virei para o lado e comecei a ouvir uma voz que dizia baixinho. "Seu desejo é uma ordem majestade". Do outro lado do quarto um grito: "Silêncio! Quem fala a noite faz xixi na cama!". Parece que o lugar é pior do que eu imaginava. Minha cabeça começa a doer e emitir um certo zunido. Preciso encontrar um pouco de sanidade aqui dentro antes que essa "clínica de reabilitação" habilite 100% da minha loucura.
Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
Vício
Estou viciado, dependente da nossa química, buscando constantemente nossos momentos inigualáveis que as vezes terminam em overdose. Tudo isso porque um dia resolvi experimentar e depois daquela experiência não consegui mais me livrar. Sim, eu achei que tivesse tudo nas mãos, que tivesse você em minhas mãos, sob controle. Mas o fato é que acontece o oposto, você me tem nas mãos e eu estou descontrolado. Mesmo assim não consigo admitir. Nego a todos que isso tem me dominado; mantenho o discurso de que posso sair quando quiser e que se ainda não estou limpo é porque não quero. Mentira. Perdi as contas das vezes que pensei ter me livrado de você, mas tive recaídas e depois delas parecia que o mundo caía sobre mim. Todos os meus amigos e parentes dizendo as mesmas coisas, dando os mesmos conselhos. É obvio que eu tenho que colocar um fim nisso tudo. O que não parece óbvio é a forma como devo fazer. Já tentei me distanciar totalmente, te ter em doses homeopáticas, deixa-la aos poucos. Mas como posso deixar alguém que me faz tão bem ainda que ao mesmo tempo me cause tantos danos?
Acabamos de nos encontrar e sinceramente não sei se estou lúcido o suficiente pra refletir sobre a situação. Parece fato que com você eu tenho uma baixa expectativa e um alto grau de prazer, e sem você, tenho uma alta expectativa e um baixo grau de prazer. O que é melhor? Queimar tudo de uma vez em um fogo bem forte ou manter a chama deixando-a se apagar aos poucos? Nesse instante o melhor a fazer é te escutar, mesmo sabendo que em outros momentos todos os seus conselhos giravam em torno de vivermos inconsequentemente. Porém, agora as coisas mudaram e eu estou certo de que você vai tentar me convencer que isso tem tratamento. Que eu posso me reabilitar e voltar a ter uma vida normal. Que o que eu preciso é ficar longe de você em abstinência. Que todo esse prazer e adrenalina estão só na minha cabeça e que eu estou doente. Doente emocionalmente.
Terça-feira, 7 de Outubro de 2008
Perguntas que querem me calar
Por que o preço do combustível não diminui se o número de carros cresce absurdamente a cada dia? Esta é a excessão para a lei/regra da oferta e da procura?
Por que no começo dos shows do chiclete com banana todos correm sem sair do lugar? Foi daí que nasceu a expressão "correr pra não chegar"?
Se uma imagem vale mais do que mil palavras, porque nos comunicamos através da escrita e não dos desenhos?
Por que ao invés de proibir o uso de celulares na cadeia não são feitos grampos para chegar mais fácil aos criminosos das ruas?
Prêmios entitulados "pelo conjunto da obra" são dados por pessoas que só leram o resumo da obra?
Se para descer todo santo ajuda então cada santo tem no mínimo duas funções?